Homenageado da terceira edição do festival, artesão salgueirense apresentou sua trajetória e a força de um saber familiar que atravessa gerações no País das Conexões Criativas
O couro, a memória e a identidade sertaneja ganharam a passarela do Festival Pernambuco Meu País neste sábado (25), em Salgueiro, no Sertão Central. Dentro da programação do País das Conexões Criativas, o desfile “Irineu do Mestre” levou para a Casa CVT a tradição de uma das mais importantes linhagens da artesania em couro de Pernambuco, em uma apresentação que aproximou o fazer artesanal do universo da moda e reafirmou a força da cultura popular como fonte de criação contemporânea. Homenageado da terceira edição do festival, Irineu José Barbosa, conhecido como Irineu do Mestre, apresentou peças que traduzem a relação histórica do Sertão com o couro e com a figura do vaqueiro.
A programação do País das Conexões Criativas vem articulando, ao longo do festival, diferentes possibilidades de encontro entre artesanato, design, moda, formação e economia criativa. Em Salgueiro, o polo também contou com atividades formativas, entre elas uma oficina de passarela conduzida por Nestor Madenas, que envolveu moradores da própria cidade na experiência de desfilar, e uma oficina de upcycling radical com Besouro. Para Eduarda Collier, coordenadora de Design e Moda da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE), a proposta foi justamente criar pontes entre os saberes locais e novas linguagens, valorizando a participação da comunidade e colocando o artesanato no centro da criação. “Aqui no País das Conexões Criativas, a gente teve uma oficina de passarela com Nestor Madenas, que a gente tem feito nas cidades, utilizando a população para desfilar nos desfiles. Acho que isso tem sido bem legal, porque eles estão adorando essa autoestima que vão adquirindo durante a formação e colocando na passarela”, destacou.
Eduarda também ressaltou a importância de trazer a produção de Irineu do Mestre para um espaço dedicado à moda e ao design. “Hoje à tarde também teve um desfile de Irineu do Mestre. Ele é de Salgueiro e trabalha com as gerações com o couro. São quatro gerações de trabalho com couro. O Zé do Mestre, que confeccionava as roupas de Luiz Gonzaga, é uma das gerações de Irineu do Mestre. Hoje em dia ele está nesse trabalho também desse ofício, criando o gibão, o chapéu, as perneiras e a cotoleira, que é uma homenagem a essa roupa que antes era muito usada por quem vivia no Sertão. E a gente está trazendo isso para a moda hoje em dia”, afirmou. Para a coordenadora, a presença do trabalho de Irineu no festival também dialogou com a atualidade, já que elementos da estética sertaneja seguem presentes na produção de artistas e na moda contemporânea. “A gente vê João Gomes também usando muito isso, usando as roupas dele. Já participou de novelas, diversos artistas usando o trabalho dele. E acho que é muito importante trazer para Salgueiro esse desfile do mestre que é daqui. A gente está muito empolgada de mostrar o couro na moda também e essa relação do design com o artesanato”, completou.
A trajetória de Irineu do Mestre está diretamente ligada à Fazenda Cacimbinha, na zona rural de Salgueiro, onde a família mantém há mais de um século o conhecimento sobre o trabalho com o couro. Irineu é um dos principais representantes da continuidade dessa tradição, herdada do avô, Mestre Luiz, e do pai, Zé do Mestre. O artesão produz gibões, vestimentas, acessórios e arreios, preservando técnicas que foram transmitidas entre gerações e que fazem do couro uma matéria-prima diretamente relacionada à história e à identidade do Sertão pernambucano.
Nesta terceira edição do Festival Pernambuco Meu País, o Governo de Pernambuco destacou Irineu como um dos três homenageados do evento, ao lado da arquiteta, designer e curadora Janete Costa e do mestre da arte figurativa em barro Mestre Vitalino. A trajetória de Irineu do Mestre representa a continuidade de uma das mais tradicionais linhagens da artesania em couro do Sertão, com peças que articulam tradição, funcionalidade e identidade sertaneja.
Para Irineu do Mestre, participar da programação em Salgueiro teve um significado especial por reunir sua trajetória artística, a homenagem recebida pelo festival e o território onde sua história foi construída. “Quero agradecer pelo convite e pela homenagem. É uma felicidade muito grande estar aqui participando, estar nesse meio da cultura que eu criei e que veio dessa cultura”, afirmou. O artesão também destacou a importância de iniciativas que aproximam o público da história e dos saberes tradicionais do município. “Estamos aqui, mais uma vez, tentando dar continuidade, e agradecer muito a Salgueiro. É bom que as pessoas cada dia procurem entender o que é esse projeto, que retrata toda a cultura da nossa cidade, do nosso povo, e isso é muito bonito e maravilhoso. Só tenho a agradecer e convidar as pessoas para entender o que é esse projeto”, ressaltou.
Promovido pelo Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura (Secult-PE), da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e da Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), o Festival Pernambuco Meu País circula até 30 de agosto, por dez cidades do Agreste e do Sertão, com programação gratuita e descentralizada.